03 outubro 2006

A boneca de porcelana

Tinha uns olhos de vidro espelhado com reflexos de rio. Dos que tiritavam de frio quando sentiam coisas que a faziam chorar gelo. Era frágil. Excessivamente frágil. Era um defeito de fabrico que a tornara incrivelmente capaz de se cortar com as lágrimas sem que os outros notassem. "É só uma boneca, é a fingir", diziam sem saber que ela tinha facas nos olhos. Era um sofrer em cacos escondido num sorriso decotado com vontade de engolir o mundo dos Contos de Fadas. Com vontade de acordar no ontem antes que o amanhã espreitasse na frincha da sua janela de Loja de Bonecas. Com vontade de abrir o livro dos desejos para um feiticeiro de coração puro. Por isso sonhava tantas coisas. Queria viver numa prateleira de alfarrabista para espirrar pós de perlimpimpim, queria ter asas, ser grilo, andar de gatas, chapinhar nas paletes dos pintores incompreendidos, comer framboesas na floresta dos gnomos, dormir no sono dos poetas, ser fada, ser louca, ser chuva, ter estrelas no bolso, dormir na lua, andar às cavalitas dos pirilampos, correr por um campo de trigo e perder o chapéu com a etiqueta "Made in China". Mas isso não era possível, porque era boneca. Não era, mas era como se fosse. Era mais porcelana do que boneca, afinal. Era triste, mas com traços de querer ser alegre. Por isso sonhava acordada e tentava não quebrar dentro da sua caixa de plástico onde estava marcado "Promoção: agora só 5 euros".

3 Comments:

At terça-feira, outubro 10, 2006, Anonymous Alena said...

A boneca queria ser Emília, a de Lobato, ser gente, ser mais, mais... e nós que o somos, tanto tenatmos escapar de ser porcelana: tão frágil.

 
At terça-feira, outubro 10, 2006, Blogger Bruna Pereira said...

Pois é... Tão Emília, tão frágil, tão frágil mesmo.
A quem o dizes...
A quem o dizes...

 
At quarta-feira, outubro 11, 2006, Blogger Sílvio Mendes said...

Lindo-lindo. Só.
E tanto.

 

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