05 setembro 2009

Recado e linhas

O Sr. Monstro apresenta as suas mais sinceras desculpas e manda dizer que foi engano. As 3 horas de pesadelo eram efectivamente para a cama do 4º esquerdo do prédio da frente, mas foi tudo de férias.

Não se aceitam trocas nem devoluções de artigos sem aviso de recepção.

Atenciosamente,
a bainha do lençol do remendo inacabado.

16 maio 2009

Prenúncio de Verão

Em frente ao mar eu sou apenas um ponto de interrogação escondido e com medo da Lua, porque ela tudo vê, mesmo de luz apagada.

23 fevereiro 2009

It's only a paper moon

"Say, it's only a paper moon
Sailing over a cardboard sea
But it wouldn't be make-believe
If you believed in me..."


Harold Arlen, 1933

18 janeiro 2009

De pedras na mão

Desenrolemos novelos de esparguete cozida por essas calçadas mundo-abaixo, na esperança de chegarmos às searas. E descansemos então, entes besuntados e munidos de faca e garfo, sem medo das borbulhas e dos vampiros, por não termos espelhos que brotam da terra.

06 dezembro 2008

And another one goes by

Os únicos seres vivos que poderiam estar a meu cargo neste preciso momento seriam flores de vaso, mas as últimas que me restam são as do pijama de Inverno.
Assim sendo, decidi desmaiar.
É só um bocadinho.
E por causa deles.

22 novembro 2008

Montra dos girassóis

Engoliu o céu, então, tudo em nuvens - algodão suspenso por fios de prata.
Com um alfinete de sol os prendeu,
de vidro os teceu...
E tudo isso não sei se me cura ou me mata.

28 outubro 2008

Eléctricos, poças de água e amarelo por aí


Não durmo.

[toc-toc-toc-toc-toc]

Acho que não me deixam dormir.

[toc-pum-toc-pum-toc]

Ou então já nem dormir sei.

[pum-pum-pum-pum]

Ensinem-me a adormecer fora do peito, que eu prometo que arrumo as botas atrás da porta e não faço mais barulho com os olhos.

[pum].

28 setembro 2008

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Será essa obstinação da agulha do gira-discos, que me faz voodoo no destino à chegada da faixa 12.
Ou será que do outro lado do vinil é quente a sede. E espera pelo vento, como copo pousado em naperon de linho espera pelas ondas do mar...

21 agosto 2008

La princesa y el enano

"Había una vez una princesa que vivía en un palacio muy grande. El día en que cumplía trece años hubo una gran fiesta, con trapecistas, magos y payasos. Pero la princesa se aburría. Entonces, apareció un enano, un enano muy feo que daba brincos y hacía piruetas en el aire.

"Bravo, Bravo", decía la princesa aplaudiendo y sin dejar de reír, y el enano, contagiado de su alegría, saltaba y saltaba, hasta que cayó al suelo rendido.

"Sigue saltando, por favor" dijo la princesa. Pero el enano ya no podía más. La princesa se puso triste y se retiró a sus aposentos. Al rato, el enano, orgulloso de haber agradado a la princesa, decidió ir a buscarla, convencido de que ella se iría a vivir con él al bosque.

"Ella no es feliz aquí", pensaba el enano. "Yo la cuidaré y la haré reír siempre". El enano recorrió el palacio, buscando la habitación de la princesa, pero al llegar a uno de los salones vio algo horrible. Ante él había un monstruo que lo miraba con ojos torcidos y sanguinolentos, con unas manos peludas y unos pies enormes. El enano quiso morirse cuando se dio cuenta de que aquel monstruo era él mismo, reflejado en un espejo. En ese momento entró la princesa con su séquito.

"Ah estas aquí, qué bien, baila otra vez para mí, por favor". Pero el enano estaba tirado en el suelo y no se movía. El médico de la corte se acercó a él y le tomó el pulso.

"Ya no bailará más para vos, princesa", le dijo.

"¿Por qué?", preguntó la princesa.

"Porque se le ha roto el corazón". Y la princesa contestó: "De ahora en adelante, que todos los que vengan a palacio no tengan corazón"."


Oscar Wilde
Recuperado no filme Tesis (1996), de Alejandro Amenábar

18 agosto 2008

...

Fias nuvens ao sol-pôr, carpideira.
Gentilmente o fazes com essas mãos de pássaro que não te deixam migrar, só roubar gente.
E nós aqui, egoístas, a ver o mar aos novelos e sem tesoura nos bolsos.

22 julho 2008

Versos para Dona Jacinta

Bem branco, plissado,
vestido bonito vai bem envergado por Dona Jacinta.
Mulher do General, só veste, só usa vestido com pinta,
em bolinhas de cor.
Salta as divisões da casa com o vento nas saias.
Direita, esquerdina, anda de primor,
mais o fáchabor
que a torna bonita.

Chegada à varanda, sentada no banco,
repousa Jacinta as pernas cansadas
e, de mãos cruzadas, pensa no jantar:
Batatas assadas.
- Redondas? Quadradas?

(No vestido branquinho, sem estar desenhado,
no meio das pintas depressa pintado
recorda Jacinta um verso de amor,
dos tempos de guerra, em que era enfermeira
e havia um soldado e estava solteira.)

Redondas! (as batatas, que os versos fazem mal...)
E amarrota Jacinta nas pintinhas pretas
cantigas de amor, sonhos, estorietas…
Enquanto limpa do avental
palavras soltas de bolas-letras.

Que às oito em ponto vem o General.

04 julho 2008

O subterfúgio

Domingo à tarde colado ao doce de morango no pão.
Funâmbulos que deixam os corações aprumados ao sol, enquanto descansam nas frestas de porta com os pés descalços. Discussões com exímia racionalidade sobre a falsa explicação das coisas, recorrendo à plantação de pés-de-flor de panaceia, e o tacão dos sapatos novos que me apertam os dias dentro das pernas.
É nem sequer o medo do escuro. São os canteiros que me esqueci de regar e a porta aberta.

02 junho 2008

Mãos de tesoura

Bastaria saber a direcção dos cabelos tempestuosos e todas as viagens de barco seriam menos compridas.

26 maio 2008

Meias horas

Congelava-se o tempo nas 3 da tarde. Vento calmo.
Dom Tirano, cabelo roliço, pescoço apertado em meio palmo de gente, calça de pano e jeito de esquiço, cosia-se à parede do velho mercado, à sombra de meio quilo de grelos.

- Belo dia, Dom Tirano. Como vai isso?
- Vai vindo, como a morte. Vai indo, como o viço.


Aninhando-se em escuro o sol, Dom Tirano vai-se à sorte, sem comprar nada, roendo maçãs, atado ao postigo do muro. Tira uma a uma, cada bota enraizada, e engole-o o Tejo fundo.
Penduradas na árvore, cá fora, definham lentamente as pegadas de sereio.
Dom Tirano era temente do mundo, doente do umbigo, havia as vezes em que mentia e usava relógio à prova de sal e de frio. Mas não fazia mal a ninguém.
Só não era gente.
Nem conhecia o bem.

02 maio 2008

A vã glória da Revolução Industrial

Vais ser sempre a vidraça de comboio que me trespassa os dias em quilómetros por hora. Ou o meio metro de nó sem corda que prende os limoeiros à flor.
Não tenho bilhete. Queimei todas as viagens em aviõezinhos de papel e entretanto alguém tinha inventado o comboio. E naquele níveo peitoril esquecido na poeira da casa do lado da casa do lado, lá estarei. Debruçada desse lado do lado do lado de dentro do vapor, na medida férrea das linhas das mãos que guardam bagagem sem destino, sem loquete e com o hoje soterrado em apeadeiros devolutos.
O desespero da locomotiva que morre a cada estação é apenas o adeus de não se poder trocar de mundo, como se trocam berlindes.

16 abril 2008

Aurea mediocritas

Simplicidade é pousar os olhos e esquecer-se deles, enquanto as mãos descascam laranjas sem perguntar para onde atirar as cascas.

- Foges comigo para ontem?

03 abril 2008

Promessa

Pois eu digo que vou arregaçar esses punhos de linho bordado e procurar cada uma das pérolas desse meu colar desfeito.
Antes que o seu brilho volte a ser mero carbonato de cálcio com areia, no meio dos escombros.

31 março 2008

Ricky Nelson - Lonesome Town (1958)



Devido à ausência de preâmbulos, tudo começa num dia indefinido de mais ou menos pouco sol com tendências acinzentadas:

Conto as listas brancas da passadeira, faço trocadilhos parvos com as letras das matrículas e a caras dos respectivos condutores dos veículos, desespero pela chegada do verde, rio-me para o cão da senhora que tresanda a laca emproada (numa malograda tentativa de que alguém me compreenda num plano absurdo e logo de manhã) e continuo a fugir da rua em números ímpares, qual carteiro sempre atrasado de pés e com segredos dos outros às costas.

Numa impressão sinestésica crónica causada por noites não dormidas, parece-me sempre que vai chover algum dilúvio.
E eu de guarda-chuva esquecido em casa.
E prestes a afogar-me nesta cidade.

18 março 2008

Sufocar os dias com uma espécie de alga

Por esses jardins suspensos e submarinos estendem-se pradarias bicolores de coral, perfeitas esmeraldas chovidas e quase enterradas em bolsos de pirata que escorrem crime. A estibordo ou a bombordo, o Destino trava-se sempre à bolina e em sapatos de cristal que se afundam de branco. Enquanto o senhor capitão não interrompe os marinheiros com as alvíssaras do gajeiro, a tripulação inteira afoga-se no cheiro das sereias roucas que adormeceram na hora do banho.

11 março 2008

Ensaio sobre o sono descontínuo

A rapariga que mora na porta verde só queria saber chorar o que não se diz a ninguém. Atravessar em passos de cal viva esse muro de lápis que morre na última sílaba do que se julga não escrito. Meia certeza diz-lhe que a toalha branca e estendida na mesa espera pelos pássaros migalheiros.
O tempo humedece ao fim da tarde, enquanto ela não espera por ninguém e traça poemas sem rima em papel de alumínio.
Coitada, perdeu-se de tudo e não sabe que existem as estações secas.