31 março 2008

Ricky Nelson - Lonesome Town (1958)



Devido à ausência de preâmbulos, tudo começa num dia indefinido de mais ou menos pouco sol com tendências acinzentadas:

Conto as listas brancas da passadeira, faço trocadilhos parvos com as letras das matrículas e a caras dos respectivos condutores dos veículos, desespero pela chegada do verde, rio-me para o cão da senhora que tresanda a laca emproada (numa malograda tentativa de que alguém me compreenda num plano absurdo e logo de manhã) e continuo a fugir da rua em números ímpares, qual carteiro sempre atrasado de pés e com segredos dos outros às costas.

Numa impressão sinestésica crónica causada por noites não dormidas, parece-me sempre que vai chover algum dilúvio.
E eu de guarda-chuva esquecido em casa.
E prestes a afogar-me nesta cidade.

18 março 2008

Sufocar os dias com uma espécie de alga

Por esses jardins suspensos e submarinos estendem-se pradarias bicolores de coral, perfeitas esmeraldas chovidas e quase enterradas em bolsos de pirata que escorrem crime. A estibordo ou a bombordo, o Destino trava-se sempre à bolina e em sapatos de cristal que se afundam de branco. Enquanto o senhor capitão não interrompe os marinheiros com as alvíssaras do gajeiro, a tripulação inteira afoga-se no cheiro das sereias roucas que adormeceram na hora do banho.

11 março 2008

Ensaio sobre o sono descontínuo

A rapariga que mora na porta verde só queria saber chorar o que não se diz a ninguém. Atravessar em passos de cal viva esse muro de lápis que morre na última sílaba do que se julga não escrito. Meia certeza diz-lhe que a toalha branca e estendida na mesa espera pelos pássaros migalheiros.
O tempo humedece ao fim da tarde, enquanto ela não espera por ninguém e traça poemas sem rima em papel de alumínio.
Coitada, perdeu-se de tudo e não sabe que existem as estações secas.

03 março 2008

Esquizofrenia em dia de sol

Ontem esperneei os cabelos à beira do mar e ri-me tresloucadamente de mim mesma, descalça.
Como é ridículo querer abraçar o mar num copo de vidro que nunca nos chora.
Mereço cortar um dedo por esta mania egoísta de acreditar que as pessoas não podem ser pedras de rio atrás das montanhas. Bêbados doces que fogem depressa e com terra nas botas por causa dos vidros no chão.
É hoje que compro um pedaço de céu e lhe pinto um grito de aranha.
Antes vou pentear-me.
Junto ao meu espelho de plástico.