21 dezembro 2006

A prenda de Natal

Entrou então aquele homem com a mão a coçar a cabeça num ai Jesus desgraçado de quem quer muito uma coisa que não há forma de encontrar. Disse:
"Era um abre-latas, ó fachavor, que é Natal!"
Mas a tenda de quinquilharias só tinha Senhoras de Fátima, galos de Barcelos, um Eusébio que dizia Portugal em plástico e canetas de Coimbra com a Universidade a boiar num líquido verde.
"E abre-latas, não tem?"
O ora deixe cá ver mostrou então uma Amália de há 30 anos, um punhado de terços por benzer, isqueiros e alguns lenços de lavradeiras ao lado do caixote dos santinhos milagreiros.
"Não quer um corta-unhas? Trazem lima e são baratinhos!"
Disse o comerciante de palito na boca.
"Pois, mas o que eu queria era mesmo um abre-latas, sabe, obrigadinho na mesma, Boas Festas!"
Seria meio-dia e hora dum prato cheio de comida na tasca. Mas a ideia de um abre-latas não lhe saía da cabeça suada que limpava agora com um lenço da mão, aquele homem. Como era difícil abrir sorrisos e tirar olás. Então sem um abre-latas, mais difícil ainda não cortar-se no frio do alumínio sem abertura fácil de argola.
Do balcão veio então e desesperadamente o
"Era um prego, ó fachavor, que continua a ser Natal!"
E levou à boca a primeira garfada, aquele homem, como quem alimenta um sonho com cara de boneco de barro que não se mexe do presépio até que Janeiro passe.

* (Um grande beijinho de Boas Festas a todos os que por aqui passam.)

18 dezembro 2006

Em dias quentes, o abraço


Um parapeito de janela suga estórias pelos cotovelos. Vê o mundo pelos olhos de um rato que passa num triz pelo cano da chuva que liga ao algeroz. Um parapeito sabe sempre e exactamente de que são as migalhas que caem das bocas que se beijam com desejos de vidro. Os parapeitos são indiscretos guardiões do amor. Por isso são de pedra, ou cimento, ou madeira, ou sei lá.
Para levarem com braços em cima sem se arrepiarem.

13 dezembro 2006

Dor de cabeça

Tinhas aí uns quatro anos de fome e a morte dentro de ti.
Espreitavas da folha de jornal. Perdida. À entrada da farmácia. Pisada. Não sei por que aparecias na primeira página. Molhada. Nem quis saber. Se calhar já morreste a ainda usam a tua fotografia, porque tens uns olhos bonitos que ofuscam e fazem comprar jornais. Às cegas. Mas se me apareceres num presente de Natal, a embrulhar uma quinquilharia qualquer, então, saberei a tua estória com mais calma, enquanto como um chocolate à lareira, menino sem pernas e sem casa a que chamam preto.

"Era uma caixa de Aspirinas, por favor."

Tentarei não pisar-te ao sair.
Os pés dos outros não te servem.

11 dezembro 2006

Aquela janela

Daquela janela puxa-se a cortina
Saltam olhos pretos, meigos de menina
Vê-se meio mundo, inteiro se aberta
Daquela janela por onde se espreita.

Aquela janela tem vidros acesos
Ardem em perfume gladíolos presos
Cai a noite em cima, beija a madrugada
Aquela janela da minha calçada.

Naquela janela pousa um rouxinol
Nasce musgo verde, prende-se um anzol
É um quadro de inveja, aquela janela
Vê-la e pintá-la sem poder estar nela.

06 dezembro 2006

- Quanto dura um rebuçado de menta?


Passo vai, passo vem. "Como vai, passou bem?".
Meio sapato encharcado diz ao outro que ainda há que saltar ao pé do mar para levar o cheiro a sal no nariz. "Acabou o sal grosso", disse o armário da cozinha. Mas o mar está sempre em casa, não se vende em sacos plásticos.
"Sim, não estou nada bem, importa-se?"
Lá em cima o cata-vento diz que o Norte é uma cabeça de galo que baloiça no alto da Igreja. Mas as nuvens nunca cospem milho, só chuva: ping, ping, ping, ping e ping a ping enche aquele galo o papo. Os ditados voam no fumo da mulher das castanhas que arde em frio e sopra as mãos com um "Quentes e boas!" ao final da rua. Diz que chegou o Inverno. Eu acho que ainda não o encontraram, porque as luzes às cores continuam acesas à sua procura, fingindo que o Natal precisa de lâmpadas.

03 dezembro 2006

3 minutos depois de a maré encher

“Amanhã vou comprar umas calças vermelhas, porque não tenho rigorosamente nada a perder. Tenho um lencinho branco onde limpo as lágrimas enquanto assisto a uma vigília via TV, estou só e trago esta sombra comigo. A empregada que vem passar a ferro tem uma intimidade na ficha do despertador, está um rapaz a arder em cima do muro, disse-lhe que Portugal ainda tinha muitos comunistas, mas o que ele queria saber era onde havia señoritas. Os milagres acontecem a horas incertas e esqueces essa canção que já não passa na rádio, mas que vive secretamente dentro de ti. E o rádio sempre a tocar um coração avariado que não posso desligar. Não me queres, nunca me quiseste. (porquê, meu Deus?) Deus é a nossa mulher-a-dias e fechas a porta à chave com duas voltas e sais. Assim partes, quase a correr. Quando os nossos corpos se separaram, olhámo-nos quase a desejar ser felizes, mas nunca estou em casa quando o carteiro passa.

- Porque tenho eu frieiras se nunca tiro as luvas?
Porque o amor não serve de nada."

* Pedaços de letras d “A Naifa” indecentemente misturados.