27 abril 2007

Vingança sobre o SOL

E havia o SOL e as flores SOLarengas.
E o SOL era o pai das flores SOLarengas.
O SOL era um pai que nunca abraçava em SOLuço as filhas SOLarengas.
O SOL SOLetrava com medo o rótulo dos bronzeadores SOLares.
E o SOL desaparecia todos os dias com a sua SOLidão em passos sem SOLa.
E num dia de SOLavanco, o SOL deixou-as morrer.
Sim, o SOL deixou morrer as flores-filhas SOLarengas.
Gritai ao mundo, crianças que jogais SOLipé: o SOL deixou morrer as flores SOLarengas!
O SOL é um assassino!
Escondam o SOL!
Não o prendam, que ele queima as mãos dos polícias e SOLta-se!
Sejam SOLidários e atirem-lhe uma pedra no olho, SOLdadinhos da calçada enSOLarada!
Para ele morrer com a sua própria SOLução aquosa SOLúvel!
Porque o dia em que o mundo vir o SOL chorar,
a chuva cairá em SOL-e-dó
e o Verão morrerá SOLteiro.

24 abril 2007

A corda, corda, acorda

Afinava violinos ao descer da Estrela Polar.
Tinha tosse, uma foice, um lencinho e foi-se.
Assim, sem cortar o som do mar.
Era surdo e mudo e ouvia os sinos das capelas
nas asas de uma andorinha.
E culpando-se da Primavera espirrava em lírios e ameixas:
"a culpa é minha, minha, minha".

A culpa é tua se deixas,
ó artista desgrenhado,
que a loucura não tem dono,
é uma berlinda guiada
por um cavalo sem sono.

20 abril 2007

E o castelo ardeu

Quando nasceu, aquele fósforo era uma borboleta.
Depois de várias viagens por dulcíssimas flores de cores mil, cortaram-lhe as asas e pronto. Ainda não tem dentes do siso, parece, daí que passe as tardes a brincar com a aranha da teia azul. A aranha da teia azul, que às vezes cora e fica roxa com o princípio da adição da cor, tece todas as sextas-feiras um fio quadrado e sonha em círculos. Hoje a princesa apaixonou-se pelo pirómano.

(Faísca)

Era uma vez o lume.
A fogueira.

13 abril 2007

Ingrediente desconhecido


E afogar assim os pés nos charcos que os dias de sol deixam esquecidos. Afogá-los em número ímpar até chegar a 200. Comprar 300 gramas de farinha triga bem branca, bem solta e soprá-la nos olhos do vento até que se cegue e deixe que nevem bolos, rissóis e o sei lá das receitas. Engordar os cabelos das bonecas para que se arrepiem melhor no Verão, levá-los ao ginásio das tesouras. Cortar o ângulo obtuso do mapa e que as crianças se soltem em triângulos, sem fome, sem frio, sem a matemática e joguem aos pares sem meias. Ameias da distância. E espreitar esses castelos do livro de ontem, desfazer a areia das mãos, e pôr o avental depois de ter limpado as mãos à praia que o vulcão não fez nascer. 400 graus em forno a lenha e a terra treme. Esquecer que o cheiro a pinheiro antes era mais verde. E também antes não se pagava para olhar os pássaros no beiral com os ninhos do mundo. Antes ter um sonho era de graça. E o que importava era ter um chupa na mão e a saia pouco rota para ninguém desconfiar que andávamos a pisar o milho todo à procura das toupeiras. Esquecer que voávamos e tínhamos bugalhos de carvalho no bolso, porque os velhotes diziam que as moscas nasciam por um furinho…
O único que não percebo agora é por que é que nunca me saem bem os bolos. Será porque 200 é número par.

10 abril 2007

Nunca soube o nome dela. Nem ela o meu.

Trabalhava nas escadas dos pés dos outros.
- Varria, escorria, sacudia e dizia sempre: "Bom dia!"

Usava uma bata às bolinhas castanhas.
-Folgada, abotoada, amarrotada, sim, sobretudo mal vincada.

Desde o Natal que não a encontrava no prédio.
- Fugiu, sumiu, nunca mais ninguém a viu.

No elevador ouvi ontem que voltou para casa. O emprego da cidade fazia-lhe muito stress, agora parece que passa camisas para fora (disse o do 3º andar que usa o perfume muito estranho e vende seguros a viúvas ricas). Já não precisa das luvas verdes, pensei eu, enquanto deixei fugir o meu 5º andar. Pensei ainda que coitada, fartou-se disto, se calhar eu devia ter falado mais com ela sobre os episódios da novela da noite, devia ter sido mais simpática, perguntar-lhe como se faz o ponto das meias quando se descosem nos calcanhares, estar com ela na hora do almoço para ela não se sentir sozinha e falarmos as duas da vida dos outros que é sempre melhor do que a nossa, dizer mal da roupa da inquilina do 2º esquerdo, apreciar o advogado jeitoso do 1º andar, o que traz sempre um embrulho suspeito debaixo do braço. Pensei sobretudo que as escadas do prédio já não são as mesmas desde que ela se foi embora. Falta-lhes o cheiro nauseabundo a Sonasol que desinfectava até os pulmões ao abrir a boca de manhã para bocejar o fim-de-dia de trabalho que ainda nem tinha começado...

04 abril 2007

O tesouro enterrado

A lua tem o teu cheiro. Às vezes. Às vezes não. É só Lua. Tua. Fotografia antiga tirada a sépia que guardo no céu para que ninguém ma roube com pés de gigantone de Feira Medieval. As marés teimam em esconder-ma nos Quartos e na Lua nova. Mas a sala é grande e a velhice sabe esperar pelos eclipses. Venham as marés. Venham elas.
Porque o mar tem muita areia, mas o mar é sempre grande.
Cabe lá tudo.