10 abril 2007

Nunca soube o nome dela. Nem ela o meu.

Trabalhava nas escadas dos pés dos outros.
- Varria, escorria, sacudia e dizia sempre: "Bom dia!"

Usava uma bata às bolinhas castanhas.
-Folgada, abotoada, amarrotada, sim, sobretudo mal vincada.

Desde o Natal que não a encontrava no prédio.
- Fugiu, sumiu, nunca mais ninguém a viu.

No elevador ouvi ontem que voltou para casa. O emprego da cidade fazia-lhe muito stress, agora parece que passa camisas para fora (disse o do 3º andar que usa o perfume muito estranho e vende seguros a viúvas ricas). Já não precisa das luvas verdes, pensei eu, enquanto deixei fugir o meu 5º andar. Pensei ainda que coitada, fartou-se disto, se calhar eu devia ter falado mais com ela sobre os episódios da novela da noite, devia ter sido mais simpática, perguntar-lhe como se faz o ponto das meias quando se descosem nos calcanhares, estar com ela na hora do almoço para ela não se sentir sozinha e falarmos as duas da vida dos outros que é sempre melhor do que a nossa, dizer mal da roupa da inquilina do 2º esquerdo, apreciar o advogado jeitoso do 1º andar, o que traz sempre um embrulho suspeito debaixo do braço. Pensei sobretudo que as escadas do prédio já não são as mesmas desde que ela se foi embora. Falta-lhes o cheiro nauseabundo a Sonasol que desinfectava até os pulmões ao abrir a boca de manhã para bocejar o fim-de-dia de trabalho que ainda nem tinha começado...

13 Comments:

At terça-feira, abril 10, 2007, Blogger Tina said...

quantas pessoas passeiam nas nossas vidas, sem que saibamos nada delas, nem sequer o nome... às vezes depois de as ver desaparecer, fico a tricotar episódios da suposta vida delas que me levam às lágrimas, uma vezes de tristeza, outras de suprema alegria.

 
At terça-feira, abril 10, 2007, Blogger Bela said...

Vim ler-te...e deixar um abracinho na minha boneca de porcelana favorita...:)

 
At quarta-feira, abril 11, 2007, Blogger musalia said...

a nossa vida é feita de tantos encontros furtivos, desconhecidos, olhares mudos. mudos silenciosos, os nossos e os outros. e no entanto cheios de vivências...

olá!:)

 
At quarta-feira, abril 11, 2007, Blogger Simplismente said...

Olá te achei na Blogsgera
To te linkando,volto mais vezes
Bjinhos

 
At quarta-feira, abril 11, 2007, Blogger Vanessa said...

Há bons dias que fazem sempre falta... :)

********

 
At quarta-feira, abril 11, 2007, Blogger Bruna Pereira said...

Vanessa:

Há sobretudo pessoas curiosas que se cruzam nos nossos dias. Isso sim faz falta...

Um beijinho :)

 
At quarta-feira, abril 11, 2007, Blogger Uma mulher said...

encontros e desencontros, creio q o natural...
se não fosse assim, talvez vida não fosse.
sempre lindo td q escreve...
consigo sentir cores e cheiros...
beijos menina!

 
At quarta-feira, abril 11, 2007, Blogger Menina dos olhos de água said...

Encontros, casualidades, destinos que se cruzam, aparentemente sem razão... Não é preciso dizer que filme isto me faz lembrar, pois não?

Beijinho e até sábado :)

 
At quinta-feira, abril 12, 2007, Blogger Bruna Pereira said...

Andreia:

Da próxima vez que for à tua casa trago esse filme comigo... Já não posso mais com essa tua frase que mete as palavras "linda" e "apodrecer". Não é preciso dizer que frase é, pois não?

Sem mais comentários.
Sábado no Porto, sim. :)

 
At quinta-feira, abril 12, 2007, Blogger Menina dos olhos de água said...

:D :D Não, não é preciso Bruna. Até levas o filme, mas só se fizermos uma cópia porque eu não consigo viver sem ele!!!

E sim, definitivamente sem mais comentários!!! :)

 
At quinta-feira, abril 12, 2007, Blogger Bruna Pereira said...

Andreia Maria:

Bem, depois de mais uma grande e sem-pés-nem-cabeça conversa no MSN, descobri que realmente não podes ser normal. Por isso nos damos tão bem...

(Nem digas mais nada)

 
At quinta-feira, abril 12, 2007, Blogger Chris said...

Esta cabecinha é preciosa demais. Muito bom...
Chris

 
At quinta-feira, abril 12, 2007, Blogger Rui Luís Lima said...

olá
somos como nos filmes personagens de um quotidiano, onde por vezes a câmara não pára no seu movimento e as palavras ficam perdidas fora do plano, depois quando nos cruzamos com as personagens de outro filme, interrrogamo-nos se elas pertencem ao Estúdio onde habitamos, por vezes é tudo uma questão de "set" outras vezes é a própria vida que se esquece de nós, até esse momento em que mudamos de hábito e partimos para uma outra personagem.
paula e rui lima

 

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