07 outubro 2006

Devaneio de Outono


O dia espreitava pelo calendário de mesa. Abri a janela com um bocejo e esperei ser Domingo de Páscoa para comer um doce dos que fazem aftas na língua, mas o cinzento do dia de chuva apagou-me a luz dos olhos que tinha ainda fechados. Vi-te, menino da sacola que vieste não sei de onde e que te sentas nas escadas que me entram pela janela e me fazem sofrer com os olhos a escorrer ideias tolas. Obrigaste-me a sonhar em pijama com a cabeça de há 15 anos... "Um dó-li-tá..." Salta comigo à corda menino, deixa que salte contigo e dê pulos e pinotes nas pedras da estrada que serpenteiam o caminho da Terra dos teus Sonhos. Vamos chapinhar nas poças de água, ficar doentes para tomar xarope que sabe a morango, boa? Já sei, sonhas comigo hoje? Vá lá.... Só um bocadinho... enquanto ambos rasgamos os calções por escorregar pelos corrimões das escadarias da escola abaixo. Limpa o canto da boca, menino, que quero que seja segredo que te dei metade da minha merenda. Não queiras mostrar ao mundo de que cor são as migalhas das bolachas que se partilham como a amizade. Será o nosso segredo escondido da humanidade intelectual que quer desvendar tudo para além das estratosferas da ciência e da física.

Olha os cordões, menino, não vás tropeçar no degrau da fantasia, olha que a queda pode ser perigosa! O hospital de loucos está cheio e há ainda um longo caminho a percorrer. É isso, traçaremos um mapa com várias escalas, serás o meu guia e eu a tua bússola sem ponteiros. Tu dá-me a mão que logo verás o que nos espera... Mas não te habitues a ela, a minha mão é de pulga e quando saltar nunca mais a verás. Corre, corre, menino, que o tempo vem por ti e tu tens que o deixar passar à frente, tens, mas podes sempre fazer-lhe umas fintas, como quem engana um rato com dedos que cheiram a queijo e a pêlo de gato escondido na porta. É triste ter de perder com o tempo, mas ele tem barbas grandes e enroladas nos dias e o vento empurra os desejos das velas dos bolos de anos. É um vento da boca que sai quente com calor do peito de quem tem ainda coração. Tens tosse, menino? Pega no meu lenço, tosse à vontade, tosse, tosse e assoa-te, que o teu ranho tem a pureza das coisas, sofre da elasticidade das ideias lindas que dão para os dias de querer chorar. "Sim, não, sim, não..." Escolhe comigo uma cor de segredo, mas diz-ma ao ouvido, tu vê lá que não se espalhe com o pó das estrelas que aparecem de noite quando os grilos saltam com sabrinas de bailarinos de circo e lavam a cara com o orvalho do cedo entre a noite e o dia.

"Que linda falua, que lá vem, lá vem..." Como és sábio, menino, se calhar é melhor dormirmos, é. Deixa o sono entrar pela frincha dos olhos, fecha-lhe as pestanas que o tempo vem já... O tempo vem sempre, menino... Sempre.... Não esperes por ele. Dá-me a mão. A mão que usas para coçar a cabeça e carregar a tua sacola de mistérios cheia de inocência e aparas de lápis de cera... Ao dormir, esquece-te de mim, menino, não é bom lembrar. Amanhã verás mais gente, eu verei mais meninos e ambos seremos estranhos, porque na verdade nunca nos conhecemos. Assim não terei que cortar o teu laço e saberei sorrir sem fechar a boca de tristezas... Para adormecer, cantemos... "Um dó-li-tá, cara de amendoá, um segredo colorido, quem está livre livre está...". Tu já estás livre, menino. Vai. Eu fico à espera do bicho papão que me liberte do jogo da infância. Acho que já chegou... Entrou-me pelo despertador e chamou-me "Trim Trim" várias vezes. Eu respondo calçando um par 37 e indo trabalhar como todos os dias. Sou livre, fecho a janela e tu és livre de mim, porque nunca me viste. Quando desço passo por ti na montra dos sapatos e tu olhas-me, mas não sabes que já viajámos juntos. E eu sigo em frente, porque amanhã tenho que inventar mais alguém no meu devaneio matinal.
Agora vou apanhar o metro.

3 Comments:

At quarta-feira, outubro 11, 2006, Anonymous Anónimo said...

Quem és tu?
Deixa-me passear contigo!

 
At quarta-feira, outubro 11, 2006, Blogger Bruna Pereira said...

Diz-me tu quem és.
Não sei passear com anónimos.
:-)

 
At terça-feira, outubro 17, 2006, Anonymous Anónimo said...

O anónimo chama-se Pedro.
E o convite de passeio continua de pé :)

 

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